A Organização das Nações Unidas proclamou 2026 como o Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável. O anúncio poderia soar distante, como tantas resoluções globais que parecem morar apenas nos gabinetes e nas páginas oficiais. No entanto, a ideia se tangibiliza quando chega ao chão das cidades e encontra rostos concretos e histórias que não cabem em relatórios. O voluntariado, quando vivido de verdade, deixa de ser conceito e se transforma em ação real.
Em uma manhã de sábado, enquanto muitos ainda davam uma prolongada no sono, um grupo voluntário se reunia em frente a uma escola pública da periferia. Não havia palco montado nem imprensa aguardando. Na sala de aula, caixas de livros arrecadados, cadernos, canetas coloridas e um cuidado silencioso na organização das cadeiras em círculo. A proposta era simples: uma oficina de escrita e conversa com adolescentes que carregavam sonhos e rótulos.
No início, os meninos e meninas chegaram com aquele olhar de quem já aprendeu a desconfiar de adultos entusiasmados. Braços cruzados, fones no ouvido, respostas curtas. Em vez de começar com orientações técnicas, o voluntário que conduzia a atividade contou uma história pessoal de fracasso e outra de sucesso. Falou de um projeto que não deu certo, de críticas recebidas, de noites mal dormidas, falta de dinheiro e desespero. Não romantizou a queda e reconheceu o tropeço.
O ambiente mudou gradualmente no decorrer da oficina. Uma garota, sentada no fundo, pediu a palavra e leu um texto sobre a ausência do pai. A sala ficou em silêncio. Outro jovem escreveu sobre o medo de não conseguir trabalho. Quando a oficina terminou, nenhum deles se tornou escritor premiado. No entanto, saíram com algo menos visível e mais profundo: a experiência de serem escutados sem julgamento, algo que a escola já faz, mas que, quando alguém diferente se inclina a entregar, reforça um conceito naquelas pessoas.
Tudo isso dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030. Educação de qualidade não se resume a índices, já que envolve autoestima, pertencimento, confiança. O voluntariado, nesse contexto, atua como ponte entre políticas públicas e humanidade concreta.
Em outra frente, um grupo do Tio Flávio Cultural organiza visitas periódicas a instituições de longa permanência para pessoas idosas. Não se trata de levar grandes eventos. A proposta é menos espetacular e mais radical: oferecer companhia. Em uma dessas visitas, uma senhora de 82 anos, residente do local, aguardava ansiosamente o horário combinado. Pediu ajuda para escolher o brinco, ajeitou o cabelo com cuidado e pediu para posicionarem a cadeira de rodas perto da porta.
Durante a conversa, ela narrou memórias de juventude, descreveu o primeiro emprego, relembrou o nascimento dos filhos. Entre uma história e outra, deixou escapar a frase que resume muito do que se vive ali: “O que dói não é a idade, é a sensação de não fazer mais falta”.
A voluntária segurou sua mão e respondeu com um olhar de acolhimento. Naquele instante, combater a solidão também significava promover saúde e bem-estar, outro dos ODS. Sustentabilidade inclui vínculos. Desenvolvimento também passa por relações que sustentam o sentido de existir.
Em um determinado inverno, a mobilização para arrecadar agasalhos ultrapassou a expectativa inicial. Mais importante do que a quantidade foi a forma como a entrega aconteceu. Em vez de distribuir peças de qualquer maneira, os voluntários organizaram um espaço semelhante a uma pequena loja solidária. As pessoas podiam escolher o que vestir, experimentar, decidir.
Uma mãe, ao sair com um casaco para o filho, comentou que fazia tempo que não tinha o direito de escolher algo. Esse detalhe revela uma dimensão essencial do voluntariado responsável: preservar dignidade. Não se trata apenas de suprir carências materiais, mas de afirmar a condição humana de quem recebe.
O Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável propõe exatamente isso: reconhecer que voluntários são agentes de transformação na implementação dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Transformação não nasce apenas de grandes investimentos financeiros. Logicamente, quanto mais recurso financeiro, mais musculatura os projetos podem adquirir, mas a transformação se constrói também na constância de pequenos gestos organizados com ética e compromisso.
Em outra ocasião, o Tio Flávio Cultural promoveu uma roda de conversa com familiares de dependentes químicos. O ambiente estava carregado de cansaço. Mães e pais traziam nos olhos noites mal dormidas e perguntas sem resposta. O encontro não ofereceu fórmulas mágicas. Ofereceu escuta, informação qualificada e, principalmente, a possibilidade de compartilhar dores sem vergonha.
Uma das mães afirmou, ao final, que entrou se sentindo culpada e saiu se sentindo acompanhada. Quando famílias encontram apoio, fortalece-se a rede de proteção social, condição essencial para qualquer projeto de desenvolvimento sustentável.
O voluntariado, quando sério, não substitui o Estado nem romantiza a precariedade. Ele complementa, tensiona, provoca, inspira. Age onde a burocracia demora, mas também cobra políticas estruturantes. Atua no imediato, sem perder de vista o estrutural.
A força do trabalho voluntário do Tio Flávio Cultural reside exatamente nessa combinação entre ação concreta e reflexão crítica. Não se trata de caridade episódica, e sim de compromisso contínuo com a humanização das relações. Cada oficina, cada visita, cada roda de conversa carrega a convicção de que pessoas não são números nem estatísticas ambulantes.
Em 2026, quando o mundo volta seus olhos para o papel dos voluntários no desenvolvimento sustentável, histórias como essas ajudam a traduzir a proposta em realidade palpável. O desenvolvimento que a ONU envolve erradicar a pobreza, reduzir desigualdades, promover saúde, garantir educação, fortalecer instituições e proteger o planeta.
Nenhum voluntário, isoladamente, resolve desafios globais. Porém, cada voluntário amplia a rede de cuidado que sustenta mudanças maiores. Cada encontro verdadeiro gera um efeito que se espalha de forma silenciosa. Um jovem que descobre sua voz pode influenciar a própria comunidade. Uma pessoa idosa que se sente lembrada recupera a vontade de participar. Uma família apoiada encontra fôlego para continuar.
O voluntariado não elimina todas as injustiças. Ele, contudo, impede que a indiferença se torne regra. Em um tempo marcado por pressa, olhar cabisbaixo e individualismo, escolher servir representa um posicionamento ético, humano e gregário.
O Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável não é apenas uma data simbólica. Ele funciona como convite aos governos a fortalecer políticas de participação social. Convida organizações a estruturarem ações responsáveis, cidadãos a compreender que sempre existe algo possível de ser feito.
Nas experiências do Tio Flávio Cultural, o voluntariado revela que desenvolvimento sustentável começa com relações sustentáveis. Quando alguém decide doar tempo, talento e escuta, constrói-se um tipo de riqueza que não aparece no PIB, mas sustenta comunidades inteiras. E é isso que é preciso incentivar e fomentar.
